A Caseira Interesseira

Este “causo” faz parte de um acervo de textos para um livro escrito a quatro mãos com meu Grande e Saudoso Primo Fernando Corpa, que também integrou a Equipe Troféu Pesca. Embora pronto, o livro nunca foi publicado. Conta mais uma passagem em companhia de meu formidável Tio Osmar. Que saudade!

Bomediano

O Rio Pardo é um importante tributário do Rio Grande. Apesar de muita poluição e represas em seu percurso, consegue ainda em algumas faixas, produzir dourados, barbados, pintados, pacus, piavas e curimbas. Além destes, existe ainda em razoável quantidade, um peixe em especial: a tabarana! Pretendendo fazer uma matéria para a TROFÉU PESCA sobre a pesca desse peixe no Rio Pardo, marquei com meu querido e saudoso Tio Osmar, uma pescaria de fim de semana.

Foi conosco um vizinho seu, Sr. Paulo, grande companheiro que depois de ver a eficiência das iscas artificiais, adotou-as e agora é um de seus incentivadores. Para não nos preocuparmos com alimentação, passamos em uma padaria onde compramos alguns refrigerantes, pães, presunto, queijo, azeitonas e mortadela, exagerando até, na quantidade. Além de uma garrafa de vinho, meu formidável tio mandou empacotar alguns pães e uma boa quantidade de mortadela para o caseiro do rancho de um amigo seu, onde deixava seu barco. Costumava sempre levar algo assim, de forma espontânea para o caseiro.

Assim, partimos com a esperança de que fosse uma ótima pescaria, torcendo por obtermos boas fotografias, pois essa era a finalidade daquela excursão. Todos os peixes seriam soltos com vida.

Chegando ao rancho, a mulher do caseiro veio abrir o portão com uma má vontade daquelas e com muito pouca conversa. Meio chateados, meus companheiros foram até o bagageiro do carro e retiraram o pacote e a garrafa de vinho, entregando-os à nossa geniosa anfitriã. Feito isso fomos para o rio.

Passamos uma boa parte do dia pescando. Apesar de muito tentarmos, usando diversas espécies de iscas, as ações ficaram apenas para nosso companheiro com dois ataques em seus spiners. Por não estar acostumado com essas iscas, deixava de fisgar adequadamente para que os anzóis ferrassem, acabando por deixar escapar os dois exemplares.

O Rio Pardo ainda tem muita mata ciliar com enormes árvores ainda primárias e a certa hora, paramos à sombra de um gigantesco Jequitibá-Rosa (Cariniana brasiliensis) para fazer nosso lanche.

Foi aí que tivemos a surpresa: os pacotes foram trocados e nosso verdadeiro lanche estava agora em mãos de nossa anfitriã. Conosco, apenas pão e mortadela. Não que fosse ruim, mas não era o que tínhamos planejado para nós. No entanto, fizemos disso um verdadeiro banquete, demos muita risada, sobretudo conjeturando sobre o que pensaria de nós agora, aquela mulher, que com tanta má vontade nos recebeu.

À tardinha, sem fotografias, mas com o espírito cheio de alegria e satisfação por termos passado um dia memorável naquele rio, voltamos para o rancho e guardamos o barco. Ali, para nossa surpresa, encontramos “outra” mulher, tamanha a transformação que a troca de lanches proporcionara. Na despedida, estava falante e radiante de alegria. Abriu o portão para que saíssemos, desejando “breve retorno…“, “boa sorte com os peixes da próxima vez…“, e todo esse tipo de coisas.

A caminho de volta discutimos sobre como as pessoas se modificam por tão pouca coisa, dando muitas risadas da “metamorfose” da mulher.

Passados alguns dias, meu tio encontrou pelas ruas da cidade, o caseiro e sua mulher. Vinham agradecer mais uma vez pelo regalo que lhes proporcionamos. Enquanto conversavam, a mulher toda sorridente e solícita, adiantou-se dizendo:

— Voltem logo, Sr. Osmar! A casa é de vocês! Nunca recebemos naquele rancho, pessoas tão bondosas e distintas. Faço questão de recebê-los quantas vezes quiserem, torcendo para que peguem muito peixe!

Êita diabo de caseira interesseira!

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8 comentários em “A Caseira Interesseira

  1. Mas como não metamorfosear depois que degustou um belo vinho…(raridade para ela). Muito bom esse relato Grande Bome, e traduz singularmente a nossa convivência com esta gente simples e carente das varias localidades que já andei, também sempre contribuo quando estou nas localidades as quais dependo do caseiro…mas sem álcool. Talvez a demonstração dela se dê pelo fato de nem sempre ser agraciada pelos visitantes.
    Ah! tenho vindo sempre aqui e até me preocupava pelo espaço de tempo sem postagem, graças a Deus estás bem!

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    1. Esta foi uma passagem muito interessante em companhia de meu formidável Tio Osmar, Grande Roque. Logo teremos mais coisas por aqui. Estou preparando material novo e vou trazer ainda mais algumas coisas que já vinham publicadas. Grato pela presença. Forte abraço.

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  2. Uai, mas até eu mudava com um agrado desses!!! Passava até um paninho no carro d’ocês! kkkkkkkkkk
    Brincadeiras à parte, muito bom causo, meu amigo! Desculpe estar passando tão pouco por aqui, mas a nova função tem me tomado boa parte do pouco tempo disponível! Por aqui tudo bem, espero que com o amigo e família, tudo esteja ótimo! Forte abraço!

    Curtido por 1 pessoa

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