Revista Troféu Pesca – Edição nº 201 – Setembro/1996

Edição nº 201, de Setembro de 1996, da extinta Troféu Pesca, quando já se sabia da existência de tucunarés-amarelos (Cichla kelberi) em Nazaré Paulista, valendo dizer, nas águas da Represa de Paraibuna. Para mim, foi a confirmação.

Se você gosta de pescar tucunarés e quer entender o que ocorre com ele nas represas, bem como entender porque ele é considerado um “grande perigo” para as espécies nativas nos lagos onde é introduzido, não deixe de ler meus comentários sobre a presença deste peixe nas represas da região, logo após as fotos.

Quando fui a Redenção da Serra para esta matéria já era uma realidade a presença de tucunarés amarelos, mas havia também boatos de que haveria a espécie Cichla piquiti, o tucunaré-azul. A espécie kelberi já aparecia também em outras áreas da represa. Só não sei há quanto tempo lá já estavam, mas seguramente há mais de um ano. Se já transcorreram 26 anos desde a matéria, isso comprova que esta espécie está lá há bem mais que isso, chegando a suscitar a ideia de que lá estão há cerca de trinta anos.

Quando apareceu na represa sobrevieram grandes argumentações no sentido de que a espécie, sendo predadora, invasora, representava grande perigo para as espécies nativas e, geralmente a argumentação final era de que acabariam com as espécies nativas. Na verdade, naquele momento, ninguém tinha certeza de nada, já que não se conheciam casos concretos de eliminação de espécies nativas em razão da introdução de tucunarés.

Este tipo de argumentação já vinha forte em relação à introdução do dourado no Rio Paraíba-do-sul, por força de um projeto e pesquisa de dois grandes mestres em piscicultura no Brasil, Manuel Pereira de Godoy e Manuel de Moraes. Os dois pesquisadores, lotados na Estação de Piscicultura de Pirassununga, introduziram 500 dourados de 25 cm de tamanho, sendo 250 em Guaratinguetá e 250 em Pindamonhangaba. Isso ocorreu em 1945!

No entanto, eu mesmo que, até meados dos anos 1990, imaginei ser uma grande verdade nunca consegui verificar, com certeza, se a introdução do dourado representou, mesmo, tal perigo, até porque inúmeros outros fatores (barramentos, poluição, pesca predatória, etc.) contribuíram para a diminuição das espécies nativas e até mesmo do próprio dourado, de maneira que o bom senso não permite culpar este último pelo ocorrido.

Recentemente houve a aprovação de leis nos municípios de Natividade da Serra e de Paraibuna, criando proteção para o tucunaré, gerando novamente enorme discussão sobre os “perigos” que a a espécie representaria para as espécies nativas, o que parece não ter muito sentido, já que esta matéria comprova um mínimo de 5 lustros da existência do tucunaré na represa, sem que a ele se possa atribuir culpa inequívoca pela diminuição das espécies.

Na verdade as introduções do dourado e do tucunaré serviram para demonstrar justamente o contrário, já que ambas as espécies introduzidas, além de outras também introduzidas, fazem hoje, parte do ecossistema do Rio Paraíba-do-sul, coexistindo com as espécies nativas, predando e sendo predadas. Se fossem tão nocivos como se apregoa, já tiveram tempo suficiente (dourado, há mais de 70 anos e tucunaré, há quase 30 anos) para eliminar as espécies nativas, o que não ocorreu e, pelo contrário, o rio tem ainda muita vida e muito peixe, apesar das adversidades criadas pelos barramentos e poluição e pesca predatória.

Então, o que causa a maior interferência?

No meu entendimento, a verdadeira causa da diminuição das espécies (nativas e introduzidas) se deve às interferências do ser humano no rio. Obviamente que aqui não se condena o progresso, pois afinal é algo que todos buscamos e queremos. No entanto, este mesmo progresso tem seu preço e não pode ficar ileso na análise dos problemas que causam a diminuição das espécies, porque na verdade, o alto preço do progresso é justamente Proporcional ao volume de interferência que causa no meio ambiente.

Em primeiro plano surgem os barramentos. Tivemos três barramentos que entraram em operação quase que ao mesmo tempo no Vale do Paraíba no comecinho dos anos 1970. Paraibuna, Jaguari (em Jacareí) e Santa Branca. Os três barramentos foram praticamente criados para reserva de água para todo o Vale e sobretudo para o Rio de Janeiro, muito embora Paraibuna e Jaguari tenham recebido turbinas para o aproveitamento de geração de energia. Santa Branca não teve turbina até meados dos anos 1990, quando a instalaram e passou a também gerar energia.

Ora, se a ideia é reservar água, então sobrevêm sérias consequências:

=> Passaram a impedir a migração anual das espécies reofílicas, impedindo-as de gerar os níveis de hormônios necessários para uma reprodução completa e eficiente. Por força de legislação, as administradoras dos barramentos são obrigadas à criação de espécies nativas para liberação de alevinos para compensar este grande contratempo. Contudo, isso se mostra eficiente apenas parcialmente.


=> A necessidade de reservar água obrigou os sistemas ao fechamento das comportas em tempos de chuva, para abri-las somente em tempos de seca, primeiro para suprir o Vale e o Rio de Janeiro de água e, com isso aproveitar para gerar energia. Isso causa grande impacto, porque os peixes, especialmente os forrageiros, se reproduzem na cheia, nas lagoas marginais causadas pelas cheias do rio, o que não acontece mais, já que as comportas estão sempre fechadas na época das chuvas. Agora, as lagoas marginais surgem, quando surgem, apenas na época da seca, quando as comportas estão abertas, mas não é época de reprodução, de maneira que de nada servem estes lagos surgidos com a cheia.


=> Pelo lado à montante do barramento as coisas são contrárias, estando cheios na época das cheias e secos na época da seca, mas isso nada representa senão em mais prejuízos para as espécies, já que apesar dos níveis de acordo com a época, o maior problema é justamente a falta de constância nestes níveis, ora subindo, ora baixando, sem qualquer andamento natural. Os peixes reofílicos pouco ou nada conseguem neste ambiente e os de ambiente lêntico sofrem em razão da inconstância dos níveis.

BARRAMENTOS representam um dos grandes vilões nos processos prejudiciais às espécies nativas!

Além dos barramentos, há então suas concorrentes, a poluição e a pesca predatória que atuam conforme segue:

=> O Vale do Paraíba foi a região mais premiada com a instalação de indústrias que vieram para o Brasil principalmente nos anos 60/70 para seguir em franco crescimento nas décadas seguintes. Com isso, o Rio Paraíba-do-sul sofreu fortes consequências em termos de poluição, que na época era em grau absurdo e de todo tipo, física, química e orgânica. Na verdade ainda é assim, apesar de algum progresso no sentido de se acabar com a poluição, pelo que penso que se um dia acabar, será muito no futuro, porque de momento, pouco se vislumbra neste sentido.

POLUIÇÃO representa um dos grandes vilões nos processos prejudiciais às espécies nativas!

=> Ao mesmo tempo em que todos os problemas acima recrudesciam, permitiu-se a continuidade da pesca profissional, dando-se aos profissionais o benefício de uma cota muito grande de captura em relação ao pouco que o rio podia e pode proporcionar. Na minha opinião, pesca profissional em águas interiores já deveria vir proibida há décadas, até porque o verdadeiro pescador profissional, ribeirinho, aquele que em princípio deve viver exclusivamente da pesca extrativista, quase não existe mais, porque o que existe é um monte de pescadores profissionais que vivem na cidade, com atividades profissionais diversas da pesca, mas que possuem habilitação para praticar a pesca profissional.

PESCA PROFISSIONAL representa um dos grandes vilões nos processos prejudiciais às espécies nativas!!

E, no meio disso tudo estão as espécies introduzidas. Destas, do dourado quase não se fala mais, mas em grande evidência está o tucunaré! E sempre, ELE é então, o bode expiatório para toda esta estória, já que é muito mais fácil atribuir-lhe a culpa, porque muito difícil será modificar tudo o que acima se expõe de errado.

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6 comentários em “Revista Troféu Pesca – Edição nº 201 – Setembro/1996

  1. Excelente os argumentos. Meu primeiro contato com a represa foi em 98, em pesca de barranco, atrás das tilapias. Nem sabia nessa época que haviam tucunares. Só voltei na represa nos anos 2000, por participação no Tornei Pesca &Cia, onde fisgamos os primeiros exemplares e ainda obtivemos o 3° lugar no torneio. Obrigado pelas lembranças e pelos comentários atuais. Abç

    Curtido por 2 pessoas

    1. Pois é, Grande Edgar, quando esteve lá pela primeira vez, os tucunas já estavam lá, mas esteja certo, demandava “garimpar” bastante para conseguir fisgar alguns. Me lembro deste torneio; parabéns pela tua classificação! Grato pelo comentário!

      Curtido por 1 pessoa

  2. Infelizmente no Brasil se justificam o certo como errado porque o verdadeiro errado estão inseridos no contexto politico/econômico, não somente nos fatos muito bem colocados nas palavras deste incansável defensor das boas maneiras que todos deveriam praticar ao interagir no meio ambiente,…enfim somos os culpados pelo poder que eles possuem.

    Curtido por 1 pessoa

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