O Rio do Ouro e o Ouro do Rio

Esta é uma matéria inédita de uma jornada ocorrida no início dos anos 2.000, que merece registro, ainda que tardio. Inicialmente preparada para uma revista de pesca da Espanha, acabou não sendo publicada. No entanto, agora, depois de muitos anos, resolvi publicar aqui porque foi uma grande jornada, onde estivemos eu, meu Irmão Mário, além de Zé Resende (In Memoriam), Mesquita, Miltom, Anísio, Mazzeo e Juninho, grandes amigos que nos acompanharam em inúmeras jornadas de acampamentos Brasil afora . Marcou nossas vidas e merece o registro. Lamentavelmente as poucas fotos que restaram (a maioria se perdeu) são algumas que tive o cuidado de reproduzir por scanner, já que os originais não tenho mais. Contava com algumas fotos dos amigos, mas também não localizaram.

A CHEGADA

A bordo de um ônibus antigo transformado em motor-home para acampamentos de pesca, cuja velocidade não passava dos 90 Km/h e, depois de uma obstinada viagem de três dias, passávamos agora, por uma estrada de terra, aberta como uma cicatriz em meio a uma exuberante mata de árvores muito altas, de maneira a nos trazer a certeza de que faríamos uma boa jornada de pesca.

Íamos em busca de ouro! Ouro de escamas, pois o peixe que mais queríamos pescar é, ali, amarelo como o precioso metal! E para nós, igualmente valioso!

O ônibus que nos levou em muitas jornadas de pesca Brasil afora

            Assim, em dado momento surgira à nossa frente a impressionante imagem de um rio onde operava uma balsa para a travessia. De grande largura, suas águas limpas, azuis, mudavam de muito lentas em alguns pontos, para muito rápidas em outros, sempre no meio às abundantes pedras.

O majestoso Teles Pires

Por cima de nossas cabeças, como a conferir a curiosa comitiva, ou então, para oferecer-nos calorosa recepção, passava um ruidoso bando de araras-canindés. Algumas cachorras saltavam na corredeira dando caça a pequenos peixes, proporcionando peculiar espetáculo ao grupo. Meio que pasmados a observar aquele paraíso, percebemos, então, de que havíamos chegado ao nosso destino, o majestoso Rio Teles Pires, na região norte do Mato Grosso, afluente do Rio Tapajós, que por sua vez é afluente do Amazonas. Agora, bastava apenas fazer a travessia de balsa e achar um bom lugar para o acampamento.

A travessia pela balsa

            Foi em razão da informação que na região a pesca andava bastante produtiva, que montamos o grupo e fomos preparados para um acampamento nas margens do rio. Estando lá, escolhemos um ponto de fácil acesso, logo abaixo da foz do afluente Peixoto de Azevedo.

Esta era a visão que eu tinha da porta de minha barraca. À esquerda onde se podem ver as pedras, é a boca do Rio Peixoto de Azevedo
Este sinimbu vinha à porta de minha barraca frequentemente

O LOCAL

            Ainda que o lugar demonstrasse tranquilidade, não foi sempre assim. Esse rio já foi triste palco de muitas tragédias, seja por conta do garimpo, seja por conta de disputas de terras, ou por desmatamento ilegal, a partir da década de 1970 quando houve uma verdadeira febre em busca de ouro, madeira e terras baratas na região norte do Estado do Mato Grosso na fronteira com o Estado do Pará. Isso perdurou até quando lá estivemos e pudemos constatar um pouco das consequências, passando por muitas áreas totalmente degradadas pela exploração sem controle.

A exploração de madeira foi tão prejudicial quanto à do ouro.

No que se refere ao garimpo, já havia desde há muito tempo nas áreas mais próximas à capital do Mato Grosso, Cuiabá. Todavia, com a diminuição das reservas de ouro, os garimpeiros subiram no mapa, chegando aos sítios mais ao norte, ainda não explorados, também levando consigo todos os interessados em outras atividades.

            E foi assim que a região se tornou palco de tragédias e estórias de garimpo, com muita gente morta em conflitos por conta disso. Se por um lado o garimpo fez algumas poucas pessoas ricas, por outro lado, foi motivo de desesperação, morte, frustração e enfermidades para a grande maioria. Além da gente aventureira que para ali se dirigia, havia ainda, os índios, que sequer conheciam o homem branco e foram também vítimas da nova situação. Todavia, como sempre acontece, a Natureza é que acabou sendo a mais prejudicada.

            Hoje, ainda é possível ver gente trabalhando em garimpo. Naquele trecho de rio isso é proibido, mas contrariando a proibição, ali esteve durante toda nossa permanência, um grupo de garimpeiros em sua dura faina diária em busca de ouro. O ouro, já muito escasso, não vale a pena para grandes pelejas, de maneira que já não há mais tantos conflitos, ainda que por vezes ocorra algum. Por fim, o que resta de mais expressivo na área é a má fama dos garimpeiros e a pesca maravilhosa.

A balsa que trabalhava diária e intensamente no Peixoto de Azevedo

            Durante os dias de pesca, inevitável foi o encontro com os garimpeiros, de maneira que até pudemos ajudá-los em alguma coisa que necessitavam, como materiais de pesca, além de alguns medicamentos. Em troca, pudemos conhecer de perto todo o processo de extração do ouro do cascalho do rio. Permitiram até mesmo que fotografássemos a produção do dia em seu estado bruto. Essa é uma característica ímpar na pesca! Não fôssemos pescadores, certamente teríamos sido rechaçados, pois não convém a eles, testemunhas de seu “trabalho” clandestino. Ainda que o ouro lhes traga algum rendimento, percebe-se claramente que trata-se de sofrida gente.

Uma visita à balsa
A produção de dois dias de garimpo
Permitiram até mesmo sairmos na foto com a produção de ouro dos últimos dois dias

            Em conversa conosco, Tonho Garimpeiro, revelou-nos um pouco de sua vida. Tendo sido muito rico por conta do garimpo dos áureos tempos, não conseguiu, a exemplo da maioria de seus pares, livrar-se do estigma de ver vazar por entre seus dedos toda sua fortuna, que foi gasta em jogo, mulheres e bebidas de tal sorte que lhe restou apenas uma casa em uma cidade a 100 Km dali e já não tem rendimento suficiente sequer para mantê-la. Hoje, com pouca saúde, trabalha duro em busca de um ouro que quase não existe mais. E, resignado, reconhece já não ser possível perceber-se em seus olhos a chama viva e dourada de esperança de enriquecer-se.

É um trabalho duro! São três na balsa. Enquanto dois permanecem em cima, outro, cuja vida depende dos dois de cima, mergulha na escuridão com uma mangueira de sucção de cascalho e aí passa seis horas quase sem nada ver, respirando um ar misturado com cheiro de óleo diesel, conduzido por um precário tubo, sujo, encardido, bastante para levar um homem comum ao desespero. Assim, cada um por seu turno, revezando neste mister, passam seis horas de mergulho por dia.

O cascalho sobe bombeado, correndo por uma tela que prende as minúsculas partículas de ouro em um pedaço de carpete, que depois de lavado, deixa numa grande vasilha um caldo de lama e ouro em pó. Para separar um do outro, usa-se juntar mercúrio, que tem a peculiar característica de agregar quimicamente o ouro separando-o de impurezas. Coando-se esta massa de ouro e mercúrio, resta quase que somente o ouro, mas ainda com um pouco de mercúrio. Para retirar este último, soem aquecer a massa com um maçarico até que se evapore o mercúrio restando um ouro de pureza próxima a noventa e cinco por cento. O mercúrio, agora vaporizado, sobe misturado ao ar decantando-se depois, contaminando o rio, a mata e tudo mais que os habita. Uma verdadeira lástima!

Ali onde cai a água, cai também o cascalho lavado, que com o acúmulo, forma os curimãs

A PESCA

            A pesca mostrou-se bastante produtiva, com muitas capturas, seja para a turma dos que se dedicaram à pesca com iscas naturais, seja para os que se dedicaram à pesca com iscas artificiais.

            Ainda que bastante agredido, o lugar conseguia oferecer a preciosa sensação de que estávamos pescando em lugar pouco explorado, tamanha a abundância de peixes. Em razão de estar um pouco mais apartado dos pontos mais explorados, concentramos nossas incursões no rio Peixoto de Azevedo, o que acabou sendo a medida mais acertada.

No Peixoto de Azevedo há lugares em que as águas tornam-se um tanto rápidas, de maneira a formar boas corredeiras, onde imperam as cachorras. Todavia, por força e obra do garimpo restaram no rio muitos curimãs, que criam pequenas áreas onde a água, embora ainda se movimente, perde a força e são os locais onde imperam os tucunarés e bicudas. Curimãs, portanto, são pequenas ilhas formadas do cascalho que resulta do bombeamento das pedras do fundo do rio para a balsa a fim de obtenção de ouro. Então, apesar do grande mal que causam ao rio obstruindo e descaracterizando seu leito, tais acidentes acabam servindo de abrigo para forrageiros e pontos de tocaia para os predadores.

Rio Peixoto de Azevedo ao amanhecer
Estes acúmulos de cascalho oriundo do garimpo são denominados “curimãs” e são muito frequentes no Peixoto de Azevedo

Uma apreciada característica dos tucunarés pescados nestas condições, é que uma vez fisgados, saem em desenfreada carreira em direção à água rápida do rio, quando então, a briga torna-se digna de titãs.

A média diária de tucunarés acima de três quilos foi de cerca de quatro exemplares por pescador, com raros alcançando ou passando de quatro quilos. Entretanto, a média foi bastante superior quando se incluem peixes na faixa de dois quilos.

O tucunaré da região é chamado de tucunaré-açu pela população, mas não se trata da espécie Cichla temensis. Na verdade no Rio Teles Pires há a incidência de duas espécies (Cichla cf. pinima e Cichla mirianae) e na época isso sequer estava devidamente esclarecido.

Aos que se dedicaram à pesca dos tucunarés, veio o prêmio de muitos peixes bons capturados diariamente, todos sempre muito amarelos e bonitos.

Para alguns da turma que se dedicaram à pesca de peixes como as corvinas e matrinxãs, a pescaria acabou rendendo boas peças, mas sempre em iscas naturais.

Os peixes de couro preferem os lugares mais profundos e de água pesada do Teles Pires, sendo necessário o uso de chumbos pesados para a isca chegar a estas profundidades, de maneira que ali se concentraram os que gostam de sua pesca. Com isso, de barco poitado nestes pontos, andaram capturando alguns exemplares mas sempre de tamanho a desejar.

Outros peixes se fizeram presentes, como o trairão, a bicuda e a cachorra, sempre em conjunto com os tucunarés. Com respeito ao trairão, sua pesca foi praticamente no visual porque o danado fica parado em águas limpas, atacando qualquer isca que se lhe apresente à cara ou cercanias.

O mesmo peixe de outro ângulo

Tonho, sempre muito cordial, ensinou-nos como chegar em uma lagoa apartada que não se podia ver a partir do rio. A curiosidade e vontade de conseguir mais capturas nos deu ímpeto para mover um trabalho sobre-humano para levar barco, motor e tudo mais para a lagoa. E não foi em vão, já que acertamos um bom cardume de tucunas acima de três quilos.

            Diante da informação de que cerca de trinta minutos de navegação abaixo encontraríamos a foz de um tributário de nome Andu, fomos para lá tentar alguns trairões porque, segundo disseram, ali é sua morada. Subimos um bocado do Andu e descemos pescando, o que rendeu muitas capturas de bicudas, tucunarés e trairões.

O Rio Andu

Passamos nove dias acampados ali na barranca do Rio Teles Pires. Foram dias de muito boa pesca, mas como sempre, chega o dia da partida e, este apresentou-se quase como uma surpresa, pois ia esquecido em nossas memórias, tamanho o gosto de estar ali. Isso fez com que o último dia fosse um tanto triste para todos, pois ninguém estava gostando da ideia da partida, de maneira que até a água do rio em frente ao acampamento seguia aparentemente carregada de melancolia, parecendo não querer seguir seu curso.

Como sempre, um pouco antes da partida recolhi e guardei um pouco de terra daquele maravilhoso lugar, destinado a compor minha coleção. Obviamente que junto veio uma coleção de sementes que cuidara de colher conforme o interesse diário.

Um último olhar para o formidável Rio Teles Pires

Por fim, inevitável é a reflexão decorrente do fato de que o tucunaré do Teles Pires é de um amarelo intenso, simplesmente espetacular! Parece ouro, o que nos impele a raciocinar que se por um lado o rio é rico em ouro, por outro lado, o verdadeiro ouro do rio é seu tucunaré, bastando para tanto, que sua gente saiba aproveitar melhor o que este recurso pode oferecer em termos de turismo de pesca.

Saímos dali um tanto esclarecidos sobre a vida daquela sofrida gente garimpeira! Muito embora não aprovemos seu modo de vida, agora os compreendemos um pouco mais, pois garimpeiros podemos dizer que também somos nós! Garimpeiros de peixes! Ainda que nosso “ouro” seja um tanto distinto, igualmente não medimos esforços para consegui-lo!

PS.

Na época quase não havia empreendimentos de estrutura turística de pesca na região, o que hoje já se constata bastante presente, pelo que parece que a gente do lugar conseguiu entender, senão completamente, ao menos parcialmente, o valor do verdadeiro ouro que nada por aquelas águas.

Desde o início até o final da década de mil novecentos e noventa empreendemos muitas jornadas de pesca no mesmo ônibus antigo. Os integrantes variaram um pouco, mas eu e meu Irmão Mário estivemos em todas. Foram muitas vezes, das quais trazemos grandes e formidáveis aventuras guardadas de forma indelével na memória!

Nesta aventura eu e meu Irmão tivemos o prazer de contar com a companhia de nossos especiais Amigos Zé Resende (In Memoriam), Milton Kawashima, Luis Mazzeo e e seu filho Juninho Mazzeo, Mesquita e Anísio. Infelizmente não tenho fotos deles para a publicação, pois muitas se perderam.

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46 comentários em “O Rio do Ouro e o Ouro do Rio

  1. Formidável Grande Bomediano. muito valioso esse ouro que tinhas guardado todo esses anos, além de também voce poder relembrar as suas aventuras, com os sacrifícios da época na verdadeira demonstração de espirito que tem o pescador. Parabéns aos manos, o amigo Mário inseparável e sempre parceiro presente.
    lamento não poder dar as curtidas nas redes indicadas, como já havia citado, não interajo nesses meios.

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  2. Fantastico relato deste meu Tio, o qual sempre foi uma referencia para todos nós!!! Tive o prazer de estar neste grupo em 1994, onde as atividades extra pescaria eram uma maravilha a parte, jogos de truco, estórias, divisão dos afazeres acampamento, e tudo mais que cercava a pescaria era maravilhoso!!!!

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  3. Como um post desta natureza nos leva ao passado e nos faz rever por quantas aventuras passamos juntos por esse Brasil afora. Parabéns irmão, que seu blog faça muito sucesso e seja um ponto de consulta e informações quando necessárias. Um grande abraço. Seu irmão Mário.

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  4. Grande Sr Domingos! (Grande Amigo, Grande Pescador, Grande Ser Humano).
    Ponto de pesca maravilhoso, jornada realmente digna de ser elencada como enesquecível e, acima de tudo, cercado de bons companheiros de pesca, entre eles seu Irmão Sr Mário, outro grande pescador e excelente pessoa.
    Forte abraço!
    Sucesso nessa sua nova missão!

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  5. Você é um excelente contador de fatos reais, como este.
    Não se trata de uma simples “história de pescador”, dessas que ouvimos pela vida agora, cheia de falsas verdades.
    Seu relato me encantou pela clareza e consistência.
    E pensar que os garimpeiros artesanais do seu relato nada têm da sofisticação dos que a mídia divulgou nos últimos dias.
    Parabéns, Mingo pelo seu respeito à natureza.
    Meu abraço de paz.

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  6. São estas grandes lembranças que nos fazem nunca desistir da nossa paixão. Parabéns Mestre pelo relato! Quanto as fotos, deixa para lá, quando estou pescando, estou pescando e não ligo para fotos, o que importa é que eu vivi aquele momento, quem me conhece de verdade vai acreditar, não precisa de mais provas!

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  7. Bomediano como sempre nos presenteando com seus relatos ricos em texto e imagens! Tenho o privilégio de ser seu amigo, e compartilhar de alguns dias de pesca ao seu lado! Obrigado por dividir seus conhecimentos e experiências! Grande abraço do seu irmão!

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  8. Fantástico, bravo! Simplesmente sensacional essa matéria e o seu descritivo.

    ” … pois garimpeiros podemos dizer que também somos nós! Garimpeiros de peixes! Ainda que nosso “ouro” seja um tanto distinto, igualmente não medimos esforços para consegui-lo! …

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  9. Que bela jornada mestre Bome, a espécie cichla mirianae do teles é de um amarelo muito bonito mesmo. Ainda é capturado com certa facilidade nos rios e lagoas em todo o norte de mato grosso e sul do PA, infelizmente os grandes exemplaraes são mais raros.

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