Bom Jesus do Enrosco

Este “causo” faz parte de um acervo de textos para um livro escrito a quatro mãos com meu saudoso Primo Fernando Corpa, que embora pronto, nunca foi publicado. Por se tratar de estória real, os nomes dos personagens vêm aqui providencialmente alterados.

Bomediano

O Bairro Bom Jesus de Jacareí, foi no passado, um importante entreposto de produtos rurais que embarcados nos vagões da antiga Central do Brasil, eram distribuídos para todo o Vale do Paraíba e até para São Paulo. Hoje, os trilhos estão cobertos e corroídos pela mesma e teimosa ferrugem que, fruto de muita politicagem e total descaso, assola outros setores da vida e costumes brasileiros.

Porém, a teimosa ferrugem não conseguiu corroer a imponente ponte que no bairro, transpõe o não menos imponente Rio Paraíba do Sul. Este, por sua vez, já naquele ponto, começa demonstrar sentir os ataques e efeitos do descaso com que é tratado, mas ainda apresenta excelente piscosidade e consegue descer digna e honradamente por mais alguns quilômetros, até chegar à cidade que o coloca no grau de degradação em que se encontra, muito embora algum esforço venha no sentido de limpar suas águas, mas ainda sem um resultado satisfatório.

Pela piscosidade do lugar, muita gente prefere pescar diretamente de cima da ponte, dois peixes em especial: o mandí e a piava, sendo esta última a mais procurada. É comum encontrarem-se sobre a ponte, pescadores até de outras cidades próximas a Jacareí e da Grande São Paulo. Como a ponte é alta, a criatividade dos pescadores desenvolveu uma espécie de puçá que é descido por uma corda fina até o nível da água para trazer com segurança, o peixe, ainda fisgado, até o alto da ponte.

Nossa estória começa quando, certa vez, estava na ponte, um grupo de amigos pescadores e dentre estes, estava Walter, sujeito muito bom, muito conhecido na cidade, mas que tem o péssimo hábito de beber demasiadamente.

Não tendo sido diferente aquele dia, Walter bebeu “todas” e, bêbado, começou a aporrinhar e atrapalhar os companheiros em seu “trabalho”. Enroscava sua linha na dos outros e pisava nas iscas (mortadela, abacate e banana), amassando-as totalmente. Estava tão embriagado que perdeu a noção do que fazia.

Aproveitando-se disso, João, um dos companheiros, muito amigo de Walter, resolveu “aprontar” para o “bebum” e propôs o seguinte:

Meu amigo, vá pescar na calçada do outro lado da ponte, pois ali é muito melhor, não tem ninguém pescando e assim não vai ficar enroscando em nossas linhas.

Do alto de sua embriaguez, Walter aceitou prontamente a ideia e, imediatamente ajudado por João, atravessou a ponte e foi, sem perceber, pescar contra a correnteza, que ali era forte. Arremessava longe e quando chumbo e isca batiam na água, a correnteza arrastava tudo rio abaixo, até que se enroscasse completa e irremediavelmente. Mesmo assim, insistiu várias vezes até que desanimado, foi aos impropérios, tirar uma soneca. Dormiu o resto do dia, ali, em pleno chão duro. Isso foi motivo de muitas risadas para todos que ali estavam naquele dia.

Depois de alguns dias, reunido o grupo a combinar nova pescaria, Walter, sem titubear, adiantou-se, quase discursando, dizendo em alto e bom tom:

— Companheiros, topo qualquer parada e pesco com vocês em qualquer lugar, mas no Bom Jesus, nunca mais! É o lugar mais cheio de enrosco que já vi em minha vida!

Avisado da brincadeira e de quanto a bebida lhe causou de infortúnio naquele dia, prometeu nunca mais beber em suas pescarias. Todos riram muito, até mesmo porque sabiam que dificilmente seria cumprida tão “árdua” promessa!

Eita lugar cheio de enrosco que é o Bom Jesus!

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4 comentários em “Bom Jesus do Enrosco

  1. Não há estórias e causos de origem de caboclos que nos mantenham sérios, eís mais uma página do ótimo livro em formatação, meu amigo Bomediano, “Deus nos dá o progresso aos passos lentos, porque a luz repentina nos ofusca a visão”…não tenho pressa a vê-lo editado…continue a revirar esse baú literário. Valeu!

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